“Só queria me superar”, diz rapper sobre convulsão ao vivo ao jogar game

<span class=”hidden”>–</span>Reprodução/Instagram

Quando você entra em um game para valer, embarca em um desafio que não acaba. Ele se renova. Se você bate um recorde, quer cravar mais um, e outro e mais outro. A busca por superar sua performance é ainda mais frenética quando está sendo visto em plena ação por milhares de pessoas, como aconteceu naquele fatídico 26 de agosto. Estava na Twitch, a plataforma de lives, jogando ao vivo o novo New World. Avisei à minha mulher e filhas que passaria horas no quarto e frisei que precisava ficar sozinho. Para ter concentração máxima, não podia ser interrompido. E o pessoal lá de casa, que já conhece o esquema, respeitou. Não parei nem para comer. Depois de catorze horas no game, superei meu próprio recorde. Dei uma breve pausa, tomei um copo d’água e retornei ao jogo. Foi aí que vieram a tontura, a perda de sentido e a convulsão, tudo visto em tempo real na internet por quem estava me acompanhando.

Às vezes me perguntam: “Não é muita loucura ficar tanto tempo jogando assim?”. Tenho amigos que varam a noite, trinta horas seguidas na frente de uma tela. Ser bom em um negócio que fala a tanta gente é um incentivo interessante. Não deixa de ser também uma forma de poder nesses dias em que essas coisas são tão valorizadas. Acabei descobrindo esse mundo bem jovem, quando praticava skate. Aquele universo me levou aos games e à música —primeiro o rock, depois o hip-hop, até chegar ao rap. Em 2011, entrei para o grupo Haikaiss, no qual estou até hoje. Entre os skatistas da Zona Norte de São Paulo era comum frequentar as lan houses. Ali, encontrei jogadores respeitados, assistia a todos por horas e queria ser como eles. A música e os games me deram uma perspectiva de ascensão na vida e me abriram uma janela, como para tantos outros garotos de famílias mais pobres da periferia.

Depois da convulsão, acordei no colo da minha esposa. Ainda estava muito agitado, e ela tentava me acalmar. Foram quarenta minutos de ausência, dos quais não lembro absolutamente de nada, só do medo da morte quando abri os olhos. O que me salvou foi justamente o fato de estar no ar ter passado mal ao vivo. Uma pessoa que estava me vendo assustou-se com aquela cena e enviou uma mensagem à minha mulher: “Vai lá e vê se ele está bem”. Ela me encontrou caído no chão, debatendo-me, com os olhos revirados e a língua enrolada. Chegou a achar até que fosse brincadeira, mas logo notou que era sério e me levou para o hospital. O médico apareceu informando que eu tinha deslocado o ombro direito, onde eu sentia uma dor absurda, e precisei passar por uma cirurgia para colocar pinos nos ossos.

Quando finalmente entrei nas redes sociais, fiquei assus­tado: fui bombardeado com a imagem da convulsão compartilhada por todo mundo e mais um pouco. A expo­sição do episódio provocou diversos boatos e insinuações de que eu havia tido uma overdose, de que o ataque aconteceu pelo uso de drogas, esse monte de fake news. Mas vivi também o outro lado, o do apoio e do afeto. O médico me disse que o stress acumulado era o que tinha detonado a convulsão. Além do alto desempenho no jogo, naquele dia também queria me superar para ganhar algum dinheiro nestes tempos magros de pandemia, em que os shows pela primeira vez diminuíram de forma preocupante. Quanto mais tempo jogando, maior seria o retorno financeiro da empreitada. Por uma dessas ironias do destino, apenas dois dias depois da cirurgia no ombro haveria uma apresentação do meu grupo em um drive-in. Deveria ficar em casa, de repouso, segundo alertou meu médico. Mas decidi ir. E os ingressos se esgotaram. Bati novo recorde, desta vez no palco. Foi o melhor show da minha vida.

Depoimento dado a Thais Gesteira

Publicado em VEJA de 30 de setembro de 2020, edição nº 2706

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