Livre, leve e solto: o moletom se reabilitou na quarentena

Ter de ficar em casa o dia inteiro imprimiu no visual das pessoas uma peça que a maioria sempre usou, sim, mas não confessava: o moletom. Feitas de algodão ou malha, a calça de elástico na cintura e a blusa larga foram pouco a pouco saindo do gueto das roupas que são sinônimo de desleixo e ganhando espaço no Instagram, a vitrine do cotidiano. Agora que muita gente começa a circular de novo, não deu outra: o agasalho também se deu ao luxo de ir para a rua, muitas vezes em cores ousadas e estampas que vão do paetê ao tie-dye. Sempre atentas às novidades que a tribo jovem inventa de usar e acabam se disseminando, as grifes poderosas aderiram ao movimento de libertação do moletom: ele está presente no preview das coleções de outono-inverno de boa parte das marcas de luxo.

Como era de se prever em um período de existência entre quatro paredes, a participação do moletom no setor de vestuário no Brasil cresceu 25% desde o início do ano, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). As grandes lojas de departamentos multiplicaram as araras virtuais de calças e blusas confortáveis, com grande sucesso — a C&A registrou aumento de 650% nas buscas por esses modelos. Os influenciadores digitais, oráculos da moda nos tempos atuais, deram sua bênção, mais poderosa ainda quando o corpinho embrulhado no conforto do agasalho pertence a celebridades como Bruna Marquezine, Isis Valverde, Giovanna Antonelli e Paolla Oliveira. No exterior, Miley Cyrus e Lady Gaga desfilaram de máscara e agasalho pela rua. O conjunto, devidamente acompanhado de tênis, virou a roupa de todo dia de cantoras como a espanhola Rosalía e a menina prodígio Billie Eilish. “O moletom vai bem para um passeio no shopping e até para ocasiões mais sofisticadas, desde que misturado com outras peças e sapatos finos”, diz o estilista Dudu Bertholini.

Verdade que o agasalho esportivo nunca esteve totalmente banido dos ambientes externos, mas seu uso fora de casa limitava-se a rappers, atletas e celebridades desembarcando de longas viagens de avião. A fama de quase pijama é reflexo do cansaço visual adquirido nos anos 1980, quando o moletom (aveludado, ainda por cima) virou febre mundial, avistado em qualquer hora e lugar. O retorno agora, no entanto, não é apenas uma extensão do conforto doméstico. O agasalho, bem como as bermudas de ciclista e os tops curtos de ginástica, está ocupando o vazio deixado pela indústria da moda, praticamente paralisada durante o primeiro semestre. Desde abril, as lojas de vestuário no Brasil observaram uma queda de 40% no movimento, com pelo menos 35 500 fechando suas portas definitivamente. Estima-se que as perdas nesse setor do varejo este ano alcancem 35 bilhões de reais. Mesmo antes da pandemia, o universo fashion já vinha se ressentindo do frenesi de novos lançamentos que o mercado impunha. Com até cinco desfiles ao ano, marcas e estilistas enchiam prateleiras de novidades a uma velocidade que os consumidores não acompanhavam, resultando em encalhes monumentais. Ficou famosa a queima — literal — de roupas, bolsas e perfumes promovida pela Burberry em 2018, para impedir a desvalorização de sua grife. Neste contexto, peças mais simples, como camisetas, jeans e, sim, moletons, contribuem para manter a máquina da moda girando, enquanto a indústria toma fôlego. É vestir e relaxar.

Publicado em VEJA de 7 de outubro de 2020, edição nº 2707

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