Fabiana Cozza: ‘O que está por trás da intolerância religiosa é o racismo’

Em Dos Santos, oitavo álbum autoral da cantora paulistana Fabiana Cozza, ela homenageia em dezenove canções inéditas os orixás das religiões de matriz africana. Para a artista, o trabalho também serviu como um manifesto poético antirracista, no qual ela defende a cultura negra e luta contra a intolerância religiosa. “Quando falamos de intolerância religiosa, o que está por trás disso é o racismo”, disse Fabiana a VEJA em entrevista por vídeo.

Capa do álbum ‘Dos Santos’, de Fabiana Cozza//Divulgação

As músicas foram encomendadas por ela a compositores amigos, que escreveram as faixas já tendo em mente os santos africanos que iriam homenagear. Entre os compositores estão nomes como Zélia Duncan, Carlos Rennó, Douglas Germano, Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, Roque Ferreira, e Sérgio Pererê. Na parte musical, a cantora explorou muito a percussão, além de instrumentos de corda como o baixo elétrico e o acústico. “Só não usamos o violão”, diz Fabiana.

Para o lançamento do álbum, ela prepara um show virtual pago em 17 de outubro, às 21h, que será feito na Casa de Francisca, em São Paulo, com curadoria da diretora Laís Bodanzky, e transmitido pelo site cine.casadefrancisca.art.br (com reprise no dia seguinte, às 18h).

Você é do candomblé e todas as canções do álbum são dedicadas aos orixás. Como surgiu este projeto? Eu não comecei neste caminho hoje, estou nele há muito tempo. Tem um aforismo no candomblé que diz: “Quem aceita o seu caminho, não precisa terminá-lo”. E eu tenho aceitado meu caminho há muito tempo. Este disco me foi pedido há sete anos do ponto de vista espiritual, no terreiro. Minha mãe de santo fez um jogo de búzios e falou que seria importante cantar para os orixás. Fiquei com essa história na cabeça. 

Qual é a importância de um álbum como esse, especialmente agora quando vemos terreiros sendo atacados em atos de intolerância religiosa? Gostaria de chamar esse disco de manifesto poético antirracista. O disco não tem nenhuma letra de cunho panfletário, mas estamos falando do povo preto, de uma cultura das frestas e que sobrevive na unha. Quando a gente fala de intolerância religiosa, o que está por trás disso é o racismo. Cito o caso da mãe que perdeu a guarda da filha após um ritual de candomblé em Araçatuba. As pessoas que entraram contra a mãe só tiveram o despeito de fazer isso porque vivemos em uma sociedade onde o racismo é estruturado. Essa avó e esse pai não fariam isso se a mãe fosse católica, espírita, judia ou protestante. O disco vai muito além de uma religião, estamos falando de uma cultura que sofre ataques. 

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Por outro lado, vemos também muitos jovens brancos e de classe média se convertendo a umbanda e ao candomblé. Como vê esse movimento? A chegada das pessoas nessas religiões é importante sobretudo se elas se tornarem também defensoras da luta antirracista. Se você vai em um terreiro de umbanda ou candomblé, você está defendendo a cultura negra que está sendo ultrajada desde sempre. Acho que os chamados religiosos são muito importantes, especialmente quando ele vem na sua intimidade e, não por um modismo. Desta forma, você acaba despertando ou iluminando seu próprio caminho. Acho importante as pessoas atenderem os chamados, sejam eles quais forem. 

O álbum foi totalmente custeado por você. Por que tomou a decisão de lançá-lo em plena pandemia? Acredito que é nos momentos de maiores adversidades que a arte mostra sua real importância e a imperativa necessidade de existir. Porque, como já dizia Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. 

Leia nesta edição: os planos do presidente para o Supremo. E mais: as profundas transformações provocadas no cotidiano pela pandemiaVEJA/VEJA

Em 2018 você deixou o musical da Dona Ivone Lara após críticas de que não era negra suficiente. O episódio já foi superado? Nós, pretos, temos um inimigo muito claro e que se personificou nesse governo. A luta antirracista precisa ser, sobretudo, de muita união. Então, já não tenho mais paciência para esse discurso de colorismo, de ser mais ou menos preto, diante do real inimigo e diante das reais questões que estão postas. Então, o que eu posso falar é uma palavra de fortalecimento, tanto que eu preferi sair do musical para continuar fortalecendo a luta, mesmo com a discussão de colorismo posta e os ataques que recebi. Jamais iria para a mídia para falar contra os meus. Precisamos estar unidos. O racismo tem tentáculos poderosos e quer criar cisões dentro do próprio grupo. 

Seu pai é puxador de samba da escola Camisa Verde e Branca, em São Paulo. O samba também sofre preconceito? O samba é o meu berço. É o meu distintivo. A gente desenvolveu o samba aqui no Brasil, mas ele veio da África e tem a nossa ancestralidade negra. Como diz Nei Lopes, o samba é uma filosofia e um jeito de estar e se relacionar com as pessoas. Foi no samba que eu aprendi a ser uma pessoa mais generosa. Mas o samba não é tao prestigiado e muitos sambistas morrem no limbo. No fundo, estamos falando de uma arte feita por uma gente que sofre de racismo desde sempre.

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