Du Moscovis, sobre ‘Bom Dia, Verônica’: ‘O machismo é cruel e doloroso’

O personagem Brandão — da série Bom Dia, Verônica, da Netflix — é um policial militar que, longe do ofício, comete crimes contra mulheres. Como foi assumir esse papel? Quando de fato tive consciência do perfil do personagem, confesso que fiquei resistente. Eu já tinha aceitado o projeto, não podia voltar atrás. Mas sentia dificuldade em me aproximar desse homem. No fundo, nem queria. Conversei com o Raphael Montes (colunista de VEJA) e a Ilana Casoy, autores do livro e roteiristas da série. A Ilana, que é criminóloga, lidou com perfis parecidos na vida real e sugeriu que eu não fizesse qualquer tipo de julgamento do Brandão. Que eu só entrasse no seu dia a dia. A Camila Morgado, que vive a esposa, foi essencial nessa construção.

Tinha algum ritual antes de entrar em cena? Não exatamente, mas entrar no cenário, na casa deles, era marcante. A dinâmica do casal era muito importante. Ali desenvolvemos as cenas mais tensas, que são os olhares, as dúvidas, os silêncios. O ritual era a manutenção constante desse clima. Quando acabava o dia, eu tomava um bom banho e esperava um tempo para deixar a história e o personagem no set. Foi um período bastante dolorido.

O que exatamente causava dor? O psicopata é um personagem muito específico. Tentei fugir de qualquer caricatura. Fizemos uma construção que o aproximou de uma realidade perversa que nada mais é que nossa realidade. Convivemos com Brandões a vida toda — claro, cada um ao seu modo. Não necessariamente um policial militar nem naquele nível de psicopatia, mas pessoas que se amparam nesse ambiente machista, que existe na nossa sociedade desde sempre e que, enfim, estamos percebendo e tentando enfrentar. O machismo é cruel e doloroso. Apesar de ser uma ficção, pensamos na vida real, que era o que queríamos imprimir na série. Aquele cotidiano é comum ao nosso redor. Para uma mulher sair de uma relação daquela é muito difícil.

Mexeu com sua autoestima fazer esse personagem? Mexeu no bom sentido. Minha autoestima ficou inflada ao ser convidado, por pensarem em mim para compor um personagem de tamanha complexidade. Faz parte da minha carreira buscar personagens variados, que fujam de estereótipos.

Leva algum trauma dessa experiência? Meu trauma e minha perplexidade são com nosso dia a dia, com nossa estrutura social e a violência doméstica. Esse personagem é um instrumento de alerta para que haja mudança.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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