Executivos viajam para os lugares mais incríveis do mundo para pescar

Uma das mais belas e emocionantes passagens da literatura universal tem dois protagonistas: um marlim-azul e um pescador solitário e cansado que empenha toda a força que lhe resta para pegá-lo. A memorável batalha entre o homem e o magnífico peixe de quase 700 quilos é descrita no livro O Velho e o Mar, do seminal escritor americano Ernest Hemingway, ele mesmo um pescador apaixonado que se estabeleceu em Cuba para fazer o que mais gostava. Para além do romantismo da cena, porém, há uma revolução em andamento na pesca esportiva, quase setenta anos depois do lançamento do livro: viajantes com sede de aventura e equipamento de última geração rodam o mundo atrás de experiências inesquecíveis, dispostos a gastar um bom dinheiro para isso.

Atividade antes dominada quase exclusivamente por homens, que zarpavam solitários ou com um grupo de amigos, a pesca esportiva passou a cativar mulheres e atrair a família inteira. O engenheiro civil Roberto Bontempo é um desses aficionados, e hoje escolhe as viagens de acordo com a possibilidade de pescar e de estar ao mesmo tempo acompanhado da mulher e dos dois filhos. “Descobri que é possível fazer pescaria, turismo e ter um convívio familiar intenso”, diz o engenheiro, que cita, entre tantos destinos memoráveis, Amazônia, Alasca, Namíbia e até uma jornada a bordo do trem transiberiano para pescar em Khabarovsk, no extremo oriente da Rússia. São férias fascinantes, que podem proporcionar a aventura de uma vida e ainda por cima com todo o conforto, mas são dispendiosas: um pacote para o Alasca, por exemplo, custa de 4 000 a 6 000 dólares por pessoa, sem contar a parte aérea.

Embora esteja crescendo exponencialmente nos últimos anos, a pesca esportiva, algumas vezes, é passada de pai para filho. Foi o caso do empresário Carlos Pimenta de Souza Júnior. A paixão, que começou aos 10 anos, virou obsessão. Hoje é ele quem leva o pai para se divertir em rios chilenos formados pelo degelo dos Andes. Pimenta explica que existe um ciclo interminável entre os praticantes do esporte, nem que para isso seja necessário gastar pequenas fortunas: “Nós estamos a todo momento atualizando equipamentos e buscando itens de ponta”, diz. “Pode ser uma isca mais moderna ou até mesmo um drone para fotografar o passeio.”

NO MAR E NO RIO - De cima para baixo: o escritor Ernest Hemingway (de bigode), o empresário brasileiro Marcos Glueck, o jogador de futebol americano Ryan Tannehill com a mulher e a atriz Paris Hilton. Para eles, a pesca é experiência inesquecível –Reprodução/Arquivo Pessoal/Miami Dolphins/Instagram

Um bom pescador carrega consigo pelo menos 10 000 reais em equipamentos, incluindo molinetes, alicates, anzóis, linhas e varas de altíssima qualidade. Carretilhas japonesas, as preferidas dos especialistas, são encontradas na internet por 8 000 reais. E existem modelos ainda mais caros. A Associação Nacional de Ecologia e Pesca Esportiva (Anepe) estima que haja entre 8 milhões e 9 milhões de adeptos do esporte no Brasil, número que engloba desde o pescador de domingo até o praticante disposto a viajar por duas semanas para alto-mar ou rios distantes e desafiadores.

Nos Estados Unidos, onde o número é quatro vezes maior, a modalidade conhecida como fly fishing, que consiste em usar isca artificial e entrar na água doce até a altura da cintura, tem seduzido jovens adultos que veem nessa atividade uma forma de se aproximar da natureza e se desligar do celular no fim de semana. Seja qual for o estilo de pesca, ela está entre os hobbies preferidos dos americanos, um lazer que fisgou personalidades como o ex-presidente Barack Obama, a atriz e empresária Paris Hilton e o jogador de futebol americano Ryan Tannehill.

Marcos Glueck, presidente da Anepe e fundador de uma agência de turismo especializada no ramo, afirma que a pesca esportiva tem tudo para deslanchar no país. “Precisamos aproveitar melhor a nossa diversidade de peixes e a extensão marítima”, diz. De fato, o território nacional tem mais de 7 000 quilômetros de litoral, além de amplas bacias hidrográficas, que somam quase 15 000 quilômetros de rios navegáveis. Glueck vê na retomada do turismo pós-pandemia uma oportunidade para consolidar a atividade e acredita que a tendência é de que as pessoas busquem lugares exclusivos, fugindo de aglomerações e privilegiando sensações. Além disso, há um desejo latente de se reconectar com a natureza, o que, na opinião dos aficionados, somente a pescaria pode proporcionar. Hemingway, que descreveu de forma tão sublime a batalha do velho pescador com o gigantesco marlim-­azul, certamente concordaria.

Publicado em VEJA de 21 de outubro de 2020, edição nº 2709

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