‘Foi uma fuga política’, diz ativista vivido por Daniel Radcliffe em filme

Em 1978, o então universitário Tim Jenkins foi preso ao lado do colega Stephen Lee, ambos ativistas na resistência antiapartheid — regime de segregação racial que vigorou na África do Sul, entre 1948 e 1994. Autoritário, o governo perseguiu e prendeu diversos opositores, entre eles o ilustre Nelson Mandela (1918-2013). Enquanto muitos presos viam a detenção como parte de seu ativismo político, Jenkin e Lee pensavam o oposto, assim se empenharam para fugir de forma mirabolante. A história é retratada no filme Fuga de Pretória, protagonizado por Daniel Radcliffe, em cartaz em alguns cinemas, disponível também no Now e exibido na sexta-feira pelo canal pago TNT (com reprise no próximo sábado, 31, às 22h50). O filme mostra como os dois burlaram a segurança de uma prisão, até então considerada inescapável, construindo chaves de madeira que lhes permitiram escapar da fortaleza sem deixar quase nenhum vestígio. Em entrevista a VEJA, Tim Jenkins, hoje com 72 anos, e ainda ativista, falou sobre o período na prisão, e o que a fuga representou para o regime. Confira:

Em março de 1978, o senhor foi preso junto a um colega, Stephen Lee, por estar envolvido na resistência contra o Apartheid. Como foi o período entre a detenção e a condenação que os levou à Pretória? Entre a apreensão e o julgamento, transcorreram-se três meses e meio. No primeiro deles, nos mantiveram na solitária, como uma espécie de tortura. Foi um momento terrível. Nos deixavam ali, abandonados, e surgiam dias depois para um extenso interrogatório. A tortura é uma técnica recorrente em regimes autoritários, mas, felizmente, não fui torturado fisicamente. Até na prisão vimos o racismo: a tortura física contra brancos não era bem vista, mas muitos ativistas negros morreram em decorrência dos maus-tratos. Ao final dos interrogatórios, nos levaram para uma audiência e nos colocaram em uma cela para aguardar o julgamento. Ainda podíamos receber visitas, e foi assim que conseguimos o livro Papillon, que serviu como uma espécie de guia para a nossa fuga. Também guardamos um pouco de dinheiro de uma maneira dramática. Nossos familiares escondiam as notas na comida e nós as colocávamos em um cilindro, que introduzíamos dentro do nosso corpo. O dinheiro ficou dentro de mim por três meses, até chegarmos no presídio de Pretória.

Até na prisão vimos o racismo: a tortura física contra brancos não era bem vista, mas muitos ativistas negros morreram em decorrência dos maus-tratos

Tim Jenkins, ativista sul-africano que lutou contra o Apartheid

Assim que chegaram ao presídio, já estavam determinados a fugir? O que os motivou a correr o risco? Naquele momento, ainda não tínhamos um plano. Há quem pense que fugimos porque a prisão é terrível, a comida ruim, a cama dura ou algo assim, mas nossa fuga foi política. Não escapamos simplesmente por considerar a experiência ruim, mas porque tínhamos um dever a cumprir. Houve uma longa discussão com outros prisioneiros, pois eles acreditavam que deveríamos permanecer na prisão. Para eles, o cárcere era um posicionamento contra o regime fascista do Apartheid. Mas éramos prisioneiros de guerra, então começamos a pensar em maneiras de sair dali e confrontar o regime do lado de fora. 

No filme, vocês procuram brechas na segurança durante os banhos de sol. Como surgiu a ideia de construir chaves para escapar? Tudo o que sabíamos é que haviam muitas portas entre nós e a liberdade e teríamos de transpor uma de cada vez, mas não sabíamos como. Investigamos o jardim, observamos os muros, e todas as possíveis saídas. Não encontramos nada, e nos convencermos de que a única forma de escapar era copiar a chave de cada porta em pequenas estacas de madeira. 

Na época, o senhor cursava Ciências Sociais na Universidade de Cape Town. Como um universitário sem nenhum conhecimento técnico conseguiu construir chaves do zero e burlar o sistema de uma prisão de segurança máxima? Eu fiz os moldes observando as chaves que os carcereiros carregavam, e o tamanho das fechaduras. Não foi tão difícil. Desenhava no papel e depois passava para a madeira. Começamos com a fechadura das nossas celas, depois usamos uma vassoura para alcançar uma segunda porta, depois uma terceira, e a cada tentativa, avançávamos para outras portas. Escapamos da cela muitas vezes entre o início do plano e o desfecho vitorioso. Por isso, o dia da fuga foi fácil. Nós sabíamos como abrir todas as portas, com exceção da última, e já tínhamos feito o caminho algumas vezes. Ao todo, eram dez portas que nos separavam da liberdade, e só a última deu problema.

Continua após a publicidade

Stephen Lee (esquerda) e Tim Jenkin (direita) durante exibição do filme Fuga de Pretória em Londres.Ian West/PA Images/Getty Images

O que a fuga de Pretória representou para o regime do Apartheid? Foi uma grande vitória para os presos políticos. O governo adorava dizer que tinha a situação sob controle por manter-nos em uma penitenciária de segurança máxima, mas saímos de lá andando, sem deixar nenhum rastro além de uma única porta arrombada. Eles fiscalizavam as fronteiras e a polícia estava mobilizada para nos capturar, mas conseguimos despistá-los. Chegamos a um pequeno país vizinho e contatamos o movimento ANC (hoje um dos principais partidos políticos do país), que nos levou para Moçambique, depois para a Angola e para a Zâmbia, onde finalmente anunciamos nossa liberdade. Foi uma vitória.

Uma vez liberto, o senhor deixou o país, mas foi considerado foragido por anos. Como foi sua vida durante esse período? Eu vivi exilado na Inglaterra de 1980 a 1991, e segui ativo na luta contra o Apartheid. Para a África do Sul, voltei somente no final de 1991, com uma permissão especial porque ainda era considerado um fugitivo, e trabalhei para o ANC durante a campanha que elegeu Nelson Mandela como presidente. 

Como enxerga o seu papel na luta antiapartheid tanto tempo depois? Se arrepende de algo?  Hoje em dia, me perguntam se ainda tenho orgulho do que fiz, porque, infelizmente, o ANC se tornou um partido corrupto com o tempo. Eu sigo orgulhoso pois estava lutando contra o Apartheid, e não para levar um partido ao poder. Ainda sou movido por ideais de libertação política, mas não acredito mais em uma abordagem revolucionária que inclua táticas violentas, embora elas tenham sido minoria. 

Ainda se considera um ativista? Eu sempre serei um ativista. Estou envolvido em um movimento chamado alternative courencies, que tenta reinventar a natureza do capitalismo. Estamos tentando criar um sistema monetário comandado pelas pessoas, que possibilite trocas em todo lugar do mundo sem o uso do dinheiro. É uma ideia poderosa, e talvez mais revolucionária do que a fuga de Pretória.

Hoje em dia, o que a fuga de Pretória representa para o senhor? Eu a enxergo como uma espécie de metáfora para a vida. Somos submetidos a diferentes tipos de cárceres, mesmo que muitos não passem pela prisão literal. Para escapar de uma prisão, seja mental, física ou política, a única maneira de fazê-lo é dando um passo de cada vez, e o primeiro deles é perceber que você é um prisioneiro. A cada porta que se transpõe, é impossível saber o que há para além dela, até que eventualmente nos deparamos com a barreira final. No nosso caso, tivemos que usar da violência para derrubá-la, mas na vida isso pode significar que é preciso força para se libertar.

Continua após a publicidade