Charlie Donlea, de ‘A Garota do Lago’, se divide entre escrita e medicina

Há pouco mais de duas décadas, o escritor e oftalmologista americano Charlie Donlea, de 41 anos, empreende viagens aos confins canadenses para pescar com o pai. São paisagens majestosas e extasiantes, destinadas a poucos aventureiros por seu difícil acesso. “Vamos tão ao extremo que não há estradas. Só se chega lá por hidroaviões, que decolam e pousam sobre os lagos”, contou Donlea a VEJA. Graças a seu livro de estreia, A Garota do Lago (Faro Editorial), de 2016, os leitores podem vislumbrar — mesmo que só na imaginação — essas águas cristalinas, ladeadas por montanhas e casas de palafita, que inspiraram o cenário de seu thriller policial, um best-seller instantâneo e inesperado.

A trama investiga o assassinato hediondo de uma jovem estudante de direito em um casebre à beira do lago de uma pequena cidade fictícia americana, que toma emprestado o visual do vizinho Canadá. Descobrir a identidade do assassino é o que motiva o leitor a devorar as quase 300 páginas da obra lançada no Brasil em 2017. De lá para cá, ela permaneceu 64 semanas na lista de mais vendidos de VEJA, resultando em 300 000 cópias comercializadas no país — um número notável, especialmente quando comparado aos 500 000 títulos vendidos em seu país natal, os Estados Unidos.

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Donlea acaba de voltar às livrarias com seu quinto e novo livro, Nunca Saia Sozinho. No thriller, dois estudantes são assassinados durante um jogo macabro em um casarão. Alunos que testemunharam o crime voltam ao local e cometem suicídio. O caso é investigado por um jornalista, que narra o processo em um podcast. Nas tramas de Donlea, as vítimas mal podem descansar em paz, pois são transformadas em celebridades póstumas. “Fico pasmo com essa obsessão da sociedade pelo sensacionalismo mórbido”, alfineta o autor.

A criatividade, por assim dizer, sanguinolenta de Donlea nada condiz com seu dia a dia asséptico. Formado em medicina, ele trabalha como oftalmologista em Chicago três dias por semana e se dedica à escrita nos demais. Os conhecimentos adquiridos com a profissão podem ser vistos (ops) em detalhes de seus livros como coadjuvantes médicos e, claro, a exibição de conhecimento sobre o corpo humano. Largar o jaleco para se dedicar totalmente à escrita, porém, não está no horizonte. “Talvez após mandar meus dois filhos para a faculdade”, brinca.

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A relação com a literatura é uma história quase tão mirabolante quanto as inesperadas reviravoltas de seus textos. Até os 20 anos, não abriu um mísero romance. “Sobrevivi à vida acadêmica sem ter lido um livro”, conta ele, que hoje tira o atraso lendo de dois a três títulos por mês, entre suas tantas outras tarefas. O preconceito com a literatura foi superado quando cruzou com o suspense A Firma, de John Grisham, de 1991. A experiência de se prender a uma trama o instigou a produzir algo que causasse o mesmo efeito.

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Para isso, visitou clássicos do gênero e montou sua receita particular composta de personagens cativantes, especialmente mulheres fortes, suspeitos variados e culpados inimagináveis. Se o leitor acertar a identidade do assassino muito antes do fim, a missão não foi cumprida. O teste que mede sua habilidade para despistar fica sob a responsabilidade da esposa, Amy. “Ela lê 100 páginas de cada vez, e, dependendo dos chutes que faz, adapto as próximas 100.” As vendas falam por si: a fórmula caseira (e frugalíssima) funciona.

O olhar afiado para tramas de sucesso vem, segundo ele, do desejo de tirar o leitor do marasmo do cotidiano, criando histórias tensas e rocambolescas. Por isso, garante que a pandemia não será tema de suas próximas obras. “Quero que meus livros descolem o leitor dos terrores do mundo real”, diz. Seus assassinatos não entram na conta, é claro — a gente sabe que são de mentirinha.

Publicado em VEJA de 4 de novembro de 2020, edição nº 2711

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