Como nasceram os perversos super-heróis da série ‘The Boys’

Com o lançamento da revista em quadrinhos do Quarteto Fantástico, em 1961 — e a invenção de personagens improváveis como Homem-­Ara­nha e Os Vingadores nos anos seguintes —, a Marvel não só energizou um gênero que capengava desde o fim da II Guerra como plantou uma semente no coração da cultura pop que afloraria quarenta anos depois nas produções de Hollywood. Seus super-he­róis humanizados e sujeitos a crises existenciais se diferenciavam do indefectível Superman, da concorrente DC Comics, criado décadas antes. Porém, ainda que as duas casas tenham eventualmente flertado com a crueldade e a perversão em suas histórias, nenhuma delas se arriscou a ir além dos limites como foi The Boys.

A série original da Amazon, cuja segunda temporada estreou recentemente, não é fácil de ser definida: violenta e grotesca, certamente, mas sobretudo perturbadora. Todos os super-heróis ali mostrados, a começar pelo Capitão Pátria, líder da equipe central da trama, ostentam falhas de caráter que deixariam constrangidos até os melhores psicanalistas — suas imperfeições não encontram paralelo nem mesmo nos piores vilões. Em cada episódio, materializa-­se a frase atribuída ao lorde inglês John Dal­berg-­Ac­ton (1834-1902), político autor de uma máxima indelével: “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

O título do seriado, contudo, não se refere aos superseres. Os “meninos” em questão são um grupo de desajustados, comandados por William Butcher, o “Bruto”, e recrutados pela agência de inteligência americana para monitorar as atividades dos super-he­róis da Vought, uma multinacional que tem tentáculos em todos os tipos de negócios, incluindo mídia, armamentos e fármacos. E é justamente uma droga da Vought o que levanta suspeitas sobre a origem divina da equipe conhecida como The Seven, cujo mais poderoso membro é o Capitão Pátria, com quem Butcher tem uma vendeta pessoal.

Como ocorre frequentemente, The Boys seguiu um caminho tortuoso até chegar ao streaming. Os personagens foram concebidos em 2006 pelo roteirista Garth Ennis para uma revista em quadrinhos de mesmo nome. Ennis, um irlandês de 50 anos, americano naturalizado e autor prolífico, escreveu roteiros para diversos personagens de quadrinhos. Entre eles, Justiceiro, Juiz Dredd e o caçador de demônios John Constantine, além de ter criado seu próprio sucesso, Preacher, a saga de um pastor sobrenatural que também foi adaptada para a televisão.

LIGA DA JUSTIÇA - Os super-heróis clássicos: compaixão pelos mortais –Warner Bros./.

Por mais irônico que possa parecer, The Boys foi originalmente publicada pela Wildstorm, à época uma divisão da DC Comics, templo sagrado da Liga da Justiça. Na sexta edição, porém, ela foi abruptamente cancelada. “Era como se eu estivesse enfiando uma faca no principal produto da companhia”, contou Ennis a VEJA (leia a entrevista na página anterior). “Nunca descobri se foi uma cena específica (o que causou o cancelamento), mas creio que o tom anti-herói da revista acabou sendo demais para a DC.”

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Entretanto, em tempo recorde, Ennis e seu parceiro desenhista Da­rick Robertson encontraram refúgio na Dynamite, editora de menor porte sem reservas quanto ao conteúdo e que deu aos autores, segundo declarou o próprio Ennis, “100% de liberdade de criação”. Pela Dynamite, a revista teve mais 66 números e circulou até 2012. Foi publicada, inclusive, em português na forma de edições encadernadas.

A exemplo do que ocorre com livros e gibis geniais porém obscuros, The Boys ganhou dimensão internacional quando uma plataforma de streaming adquiriu os direitos dos personagens e produziu a série, lançada no ano passado. Conforme reportou a Variety, revista americana de shows e espetáculos, a segunda temporada foi o lançamento mundial mais visto entre as produções originais da Amazon, com crescimento de 89% de audiência em relação à temporada anterior. A leva de episódios para 2021 já está em andamento.

Realizada com o primor técnico dos filmes de super-heróis, a série, contudo, trilha um caminho totalmente diferente e não é recomendada para crianças. Nenhum personagem da trama é heroico ou nobre, ainda que Bruto demonstre sentimento de camaradagem com seu grupo, mesmo estando obcecado em se vingar do Capitão Pátria, um sádico com pose de Capitão América, da Marvel, e poderes de Superman, da DC. Aliás, quase todos os integrantes da equipe The Seven replicam atributos de velocidade e força dos membros da Liga da Justiça, o que poderia provocar até mesmo um conflito de direitos autorais se eles não fossem, ao mesmo tempo, essencialmente inversos.

Com sua obra, que na migração da mídia impressa para a eletrônica sofreu mudanças circunstanciais, Garth Ennis propõe responder a uma pergunta que muitos se fazem quando saem do cinema: como seria o mundo se existissem super-heróis e como eles se comportariam? Geralmente abnegados nas revistas em quadrinhos, esses entes divinos provavelmente se renderiam a prazeres e tentações mundanas — eis a dura realidade, e a moral da história. Além disso, sem o atributo da compaixão, poderiam não dar valor algum à vida, algo que é sistematicamente explorado na trama.

The Boys, todavia, não se debruça sobre questões filosóficas. Os roteiristas mostram que o estrago já foi feito na sociedade moderna, mesmo não existindo criaturas correndo a 1 000 quilômetros por hora em volta de nós. Tal como na série, cada vez mais pessoas vivem duas vidas diferentes: a de fato e a adaptada para as redes sociais. Assim, em vez de ajudar de verdade quem precisa, os integrantes de The Seven preferem exibir seus feitos no ambiente virtual enquanto vendem produtos, estrelam filmes e fazem campanhas de marketing (leia reportagem na pág. 82). São influencers uniformizados ou mascarados: quem ameaçar despi-los ou desmascará-los será cancelado. O que, no mundo criado por Garth Ennis, significa perder a vida.

Publicado em VEJA de 4 de novembro de 2020, edição nº 2711

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