Para criadores, a rixa de Daniel e Johnny é o escape cômico de ‘Cobra Kai’

O trio Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, criadores da série Cobra Kai, são, como era esperado, fanáticos pelo filme Karate Kid (1984). Não por acaso, quando pensaram em um novo tema para uma série de TV, a primeira ideia foi: que fim teria levado os personagens Daniel Larusso e Johnny Lawrence, adversários no famoso campeonato de caratê All Valley. Desse exercício de criatividade surgiu Cobra Kai, que responde a essas perguntas e dá continuidade ao legado do filme, além de tentar reabilitar Johnny, mostrando que, afinal de contas, ainda bate um bom coração no peito daquele valentão de 30 anos atrás. Em entrevista a VEJA, o trio contou detalhes sobre a terceira temporada, que estreou em 1º de janeiro na Netflix, e revelou qual foi a estratégia usada para convencer os atores a voltarem a interpretar o mesmo papel tanto tempo depois. 

Não é meio ridículo que dois marmanjos continuem se estapeando por uma briga de 30 anos atrás?

Hayden Schlossberg: (risos) É sim. E a gente sabia disso quando pensou na série. A briga deles seria o nosso escape cômico. Tem algo de engraçado nisso tudo. Nós somos os caras da comédia e imediatamente conseguimos enxergar graça nessa rixa adolescente que se reflete na maturidade. Como a série trata de assuntos sérios também, quando eles começam a brigar a gente pensa: “para quê isso?”. Esse sentimento normalmente é representado pela esposa do Daniel, Amanda, porque ela não conhece o que aconteceu lá nos anos 1980 e percebi o quão ridículo é isso tudo. O cerne disso tudo é mostrar como as coisas da sua adolescência podem impactar na sua vida adulta. 

Vocês criaram a série se apoiando na nostalgia. Como pretendem avançar na história? 

Jon Hurwitz: Sim, tivemos o benefício da nostalgia. Amamos o fato de termos no centro da nossa série personagens em seus 50 anos de idade. Mas os outros, mais jovens, que estão na escola, dão uma nova experiência à trama. Então, mesmo que usemos de flashbacks do filme, nós também sabemos exatamente onde queremos chegar. A nostalgia adiciona uma camada de informação que os fãs vão entender, mas, ao mesmo tempo, é importante não exagerar. O importante é incorporar as coisas do passado que possam ser relevantes na história atual. Acho que a nova geração vai amar os novos personagens adolescentes. Os novos atores são excelentes. O sucesso é uma mistura de nostalgia com um ponto de vista moderno. 

Como convenceram os atores originais a voltarem a interpretar o mesmo papel mais de 30 anos depois?

Hayden Schlossberg: A principal coisa que fizemos foi mostrar a nossa paixão pela história e demonstrar que tínhamos um plano único para ela. Achamos que William Zabka só aceitou retornar porque a série seria a redenção de Johnny. Estávamos mais preocupados com um provável “não” de Ralph Macchio, porque seu personagem poderia ser visto como o antagonista de Johnny. Explicamos que a série conectaria os dois personagens e mostraria seus diferentes pontos de vista. Não seria apenas uma inversão de papéis. Ele não seria um antagonista de Johnny. O Daniel Larusso continuaria sendo o mesmo personagem, só que mais velho e em outro estágio da vida, após perder o seu mentor, que era o Sr. Miyagi. Tudo isso seria só o começo de uma história que retrataria os mesmo temas dos anos 1980, como o bullying, a vitória do personagem mais fraco sobre o mais forte, renovado para as novas gerações. Ralph entendeu o potencial da história. Ele ficou bastante empolgado em não deixar o legado do Karate Kid morrer. 

TRETA ETERNA - Johnny (William Zabka, à esq.) e Daniel “San” (Ralph Macchio), em Cobra Kai: vilão e mocinho dos anos 80 estão de volta enfim –Guy D’Alema/Sony Pictures/.

A trilha sonora de Karate Kid é muito marcante, com as músicas Glory of Love (do Peter Cetera) e You’re The Best Around (de Joe Esposito). Por que não utilizaram essas duas canções na série?

Josh Heald: Sabemos que a trilha sonora original do filme é muito marcante. Ficamos felizes porque conseguimos usar a música do Bill Conti, também da trilha sonora original do filme, que mesclamos com uma trilha original composta exclusivamente para a série feita por Zack (Robinson) e Leo (Birenberg). A trilha sonora do filme não é extensa, então estamos tendo bastante cuidado em usá-la. Não queremos ficar voltando na mesma música diversas vezes. Eu imagino que, em algum momento, vamos conseguir usar as músicas que você mencionou, mas elas precisam se encaixar no contexto. Ainda há muitas histórias a serem contadas e não queremos queimar a trilha sonora cedo demais. 

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A terceira temporada terminou deixando vários arcos dramáticos em aberto. Quais são os planos para a quarta temporada?

Josh Heald: Ainda não podemos contar o que vai acontecer na quarta temporada. É um segredo restrito à sala dos roteiristas. Queremos manter a maior quantidade de surpresas possíveis. Os fãs são bastante selvagens e eles pegam uma migalha de informação e extrapolam imaginando vários desdobramentos para aquilo. E nem sempre eles estão errados. E, você sabe, a especulação às vezes causa frustração no fã que gostaria de ver aquela história imaginada por ele na tela. Às vezes, não é o caminho que criamos para ela. 

Afinal, aquele chute da garça em Karate Kid foi ilegal ou não? 

Jon Hurwitz: É discutível se é ilegal ou não. Mas, o Miguel (pupilo de Johnny em Cobra Kai) deu exatamente o mesmo chute na primeira temporada e marcou um ponto. Então, talvez, ele não tenha sido ilegal no fim das contas. Mas, para além de todas as brincadeiras, quando criamos o Cobra Kai, amamos a ideia de explorar esse icônico personagem valentão dos anos 1980. No filme Karate Kid, os espectadores o desprezaram. Como a vida dele seguiu? O que o levou a ser esse valentão? E, de uma forma moderna, nós o colocamos na mesma posição que o Sr. Miyagi teve um dia. Se você assistir Karate Kid hoje, você vai ver que o Sr. Miyagi não queria treinar o Daniel nem ter nenhuma relação de amizade com ele, muito similar com a maneira como o Johnny tratou o Miguel. É uma relação de pai e filho que pode trazer a redenção a Johnny após aquele chute no rosto. 

No fim das contas, a série fala sobre amizade e união. Talvez seja isso que precisamos em 2021, não?

Jon Hurwitz: Sabe, uma das coisas que realmente curtimos em Cobra Kai é que existem vários personagens com diferentes pontos de vista e diferentes histórias de vida. Não dá para deixar apenas que o caratê resolva todos os seus problemas. Vocês viram como a segunda temporada terminou… Eles precisam encontrar uma maneira para trabalharem juntos a despeito de todas as diferenças. Então, eu acho que é uma lição que o mundo poderia adotar. Estamos em um mundo polarizado, não só nos Estados Unidos. E as pessoas que assistem ao nosso show sempre nos questionam: “Não seria mais fácil se eles se sentasse e conversassem? Eles perceberiam que têm muito mais em comum do que imaginam.”

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