O erro mais comum de quem começa a fazer trilhas, segundo Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, não está no equipamento, mas na escolha do percurso. A ausência de informações relevantes, tais como o desnível acumulado, o tipo de piso ou o tempo real de caminhada, é uma característica frequente em fotografias de cachoeiras e mirantes. É imprescindível que os profissionais do setor estejam atentos a esse conjunto de fatores, a fim de garantir passeios agradáveis e evitar que os visitantes enfrentem um retorno exausto no fim da tarde.
O Brasil oferece trilhas para todos os perfis, de percursos curtos e sinalizados em parques urbanos a travessias de montanha que exigem experiência e navegação. A habilidade de interpretar as informações contidas em um roteiro e compará-las ao próprio condicionamento físico é fundamental para aproveitar essa variedade com segurança, sem subestimar o desafio ou desistir antes da tentativa.
Os números de uma trilha revelam mais do que a distância percorrida
A distância é o dado mais divulgado, mas sozinha não é muito útil. Dez quilômetros em terreno plano e bem batido exigem menos esforço que dez quilômetros com 800 metros de subida. Portanto, o desnível é um indicador mais revelador do cansaço do percurso.
A regra de Naismith, usada no montanhismo, estima cerca de uma hora para cada cinco quilômetros em terreno plano, e mais uma hora a cada 600 metros de subida. O cálculo é aproximado e não considera pausas, calor ou trechos técnicos, mas ajuda a não se planejar demais.
Por sua vez, Daugliesi Giacomasi Souza ressalta que o tipo de piso é frequentemente negligenciado nesse contexto. O acúmulo de pedras soltas, raízes, lama ou lajes molhadas pode reduzir a velocidade e aumentar o risco de torção. Além disso, um percurso curto pode se tornar demorado, visto que uma parcela significativa dele exige atenção a cada passo.
Critérios para escolher a trilha certa para o seu nível
Antes de definir o destino, convém cruzar as características do percurso com uma avaliação honesta do próprio preparo. Daugliesi Giacomasi Souza aponta que essa comparação deve considerar o pior momento da trilha, e não a média, já que é na subida mais íngreme ou no trecho mais técnico que o cansaço e o risco se concentram. Alguns critérios orientam essa escolha:
- Desnível e inclinação máxima: subidas longas e constantes cansam de maneira diferente de rampas curtas e muito íngremes; observar o perfil de elevação ajuda a antecipar onde o esforço será maior.
- Sinalização: trilhas demarcadas, com placas ou marcações em árvores e pedras, reduzem o risco de se perder e são mais indicadas para quem ainda não domina mapas e navegação.
- Formato do percurso: roteiros de ida e volta permitem desistir a qualquer momento pelo mesmo caminho, enquanto travessias e circuitos podem ter trechos sem saída rápida.
- Água e sombra: percursos expostos ao sol, sem fontes confiáveis, exigem carregar mais água e evitar os horários mais quentes do dia.
- Guia ou autorização: algumas unidades de conservação exigem cadastro, pagamento de ingresso ou acompanhamento de condutor credenciado, o que precisa ser verificado com antecedência.
- Clima e época do ano: chuvas deixam o piso escorregadio e, em vales e cânions, podem provocar cabeças d’água, subida repentina do nível dos rios que exige atenção redobrada.

Nenhum critério deve ser analisado separadamente. Uma trilha moderada pode ser difícil em dia de calor, enquanto um percurso difícil se torna mais acessível com guia, saída cedo e ritmo conservador. A combinação de fatores define o nível de dificuldade.
Preparo, equipamento e segurança no caminho
A fundadora da DGdecor, Daugliesi Giacomasi Souza, avalia que o equipamento básico é menos sofisticado do que muitos iniciantes imaginam, mas deve ser adequado. O calçado possui solado aderente e já vem amaciado, a mochila é leve, as roupas são em camadas de secagem rápida, há protetor solar, lanterna e um pequeno kit de primeiros socorros. Esses itens atendem à maioria das trilhas de um dia.
Água e alimentação precisam de planejamento. A quantidade necessária muda com calor, duração e intensidade. Confiar em fontes naturais sem informação prévia pode ser um erro, pois elas podem estar secas e ter qualidade inferior. Frutas secas, castanhas e sanduíches ajudam a manter a energia.
Dessa forma, Daugliesi Giacomasi Souza reforça a importância de informar o roteiro e o horário previsto de retorno, demonstrando ser um hábito simples, porém eficaz, que pode fazer a diferença diante de qualquer imprevisto. A utilização de mapas offline, baixados antecipadamente em aplicativos de navegação, compensa a falta de sinal de celular, comum em áreas de mata e serra.
Definir um horário-limite é fundamental para completar o planejamento. Em caso de não alcançar o ponto de virada até a hora prevista, voltar antes é mais seguro, especialmente em percursos sem iluminação, onde o anoitecer torna os trechos simples mais difíceis. Voltar antes não é fracasso, é parte do planejamento.
O melhor percurso é o que dá vontade de repetir
A escolha de uma trilha compatível com o próprio preparo não deve ser interpretada como um sinal de cautela excessiva, mas sim como uma leitura correta das informações disponíveis. Fatores como desnível, terreno, clima e logística são mais relevantes para a experiência do que a distância ou a beleza das fotos. A capacidade de interpretar esses fatores é fundamental para o progresso gradual e seguro.
A progressão, nesse sentido, é parte integrante do prazer da atividade. Conforme observado por Daugliesi Giacomasi Souza, ao concluir um percurso com folga, o repertório é expandido para o próximo, enquanto um desafio mal dimensionado pode afastar alguém das trilhas por um período prolongado. Iniciar o percurso de maneira adequada é fundamental para transformar a caminhada em hábito, evitando que se restrinja a uma lembrança de um dia desafiador.