Edição celebra os 300 anos da capital cearense e transforma a Praia de Iracema em vitrine da moda autoral nordestina
Fortaleza voltou a ser, entre os dias 9 e 12 de junho, o centro das atenções da moda brasileira. O Dragão Fashion Brasil 2026, também chamado de DFB Festival, ocupou a Praia de Iracema com desfiles que misturaram tradição, artesanato e inovação, em uma edição especialmente simbólica por coincidir com as comemorações dos 300 anos da cidade. Para quem acompanha de longe, fica a dúvida: o que diferencia esse evento das demais semanas de moda do país, e por que ele ganhou tanto destaque nesta edição?
A resposta está no tema escolhido para 2026, “Praia de Iracema: coração e cérebro da Cidade Dragão”, que conectou moda, memória urbana e a força criativa do Nordesteem uma edição conectada às comemorações dos 300 anos da capital cearense, com o evento transformando a Praia de Iracema em um grande circuito de moda, cultura e economia criativa. Isso significa que o festival foi muito além das passarelas tradicionais, espalhando desfiles por pontos históricos e simbólicos da cidade. ConceituAdo
Estilistas consagrados e novos talentos dividiram a passarela
Uma das marcas registradas do Dragão Fashion Brasil é justamente equilibrar nomes já consolidados no mercado com criadores emergentes. Nesta edição, participaram estilistas como Lino Villaventura, Almir França, George Azevedo, David Lee, Melk Zda, J. Cabral, Silvânia de Deus, Gabriela Fiuza, além das marcas Ethos, 4 Town e 100% CEART. A diversidade de propostas mostrou que a moda nordestina não se resume a um único estilo, abrangendo desde alfaiataria contemporânea até peças inspiradas em esportes aquáticos e na cultura local.
Entre os pontos altos ficaram o desfile de Silvânia de Deus, realizado na Rua dos Tabajaras, e a apresentação de Lino Villaventura na Ponte dos Ingleses, ambos escolhidos por levarem a moda para fora do espaço fechado tradicional e aproximá-la do cotidiano da cidade. Também chamou atenção o projeto social “Vai Maria”, idealizado pelo Iprede e assinado pela estilista Cândida Lopes, no Estorilampliando o diálogo entre moda autoral, inclusão social e experiências urbanas, e aproximando o público da criação de forma mais aberta e integrada à cidade. Esse tipo de iniciativa reforça que o evento não trata apenas de tendências, mas também de impacto social através da moda. ConceituAdo
A estrutura também recebeu investimentos importantes para esta edição. O Espaço Galpão, na Rua Dragão do Mar, passou a contar com uma passarela em formato de “X”, inspirada nas semanas de moda internacionais, com capacidade para cerca de 800 convidados e dimensões de 23 metros de comprimento por 10 de largura, tornando-se uma das maiores salas de desfile do país.
O projeto Mãos da Moda colocou o artesanato nordestino em evidência
Um dos destaques mais comentados da edição foi o Mãos da Moda, iniciativa da plataforma de criativos Nordestesse em parceria com a Riachuelo Lab, que desfilou nos três últimos dias do evento. O projeto promoveu um intercâmbio entre estilistas e grupos artesanais da região, reunindo oito marcas, sendo seis da Bahia e duas da Paraíba: Luci Bortowski, Carnavália, Areia, Adriana Meira, Dua, Teroy 13, Inttuí e Morada.
Durante seis meses, essas marcas trabalharam ao lado de mais de 60 artesãos para desenvolver coleções integradas, com cada colaboração resultando entre dez e doze looks autorais. Um dos exemplos mais citados foi a parceria entre a estilista Adriana Meira e a Associação de Mulheres Artesãs de Barra, Bananal e Riacho das Pedras, que uniu técnicas têxteis tradicionais a um olhar contemporâneo de moda. Já o estilista Washington Carvalho, à frente da marca Inttuí, se inspirou na arquitetura de Lina Bo Bardi e na obra do artista Heitor dos Prazeres para construir uma das apresentações mais elogiadas do evento.
Outros nomes também reforçaram esse cruzamento entre moda e identidade cultural cearense. O potiguar George Azevedo, conhecido pelo trabalho com upcycling, criou estampas inspiradas nas paisagens do litoral do Rio Grande do Norte, reaproveitando tecidos do acervo da marca e de equipamentos esportivos. Já a Lire Brand, das empresárias Renata Saldanha e Lissa Moura, estreou no festival com uma proposta de “moda wellness”, unindo conforto e performance em peças pensadas para dentro e fora das academias.
Por que o Dragão Fashion Brasil importa para o cenário da moda nacional
O Dragão Fashion Brasil é considerado a maior semana de moda do Norte e Nordeste do país, e sua relevância vai além do calendário fashion. O evento funciona como uma plataforma de visibilidade para estilistas regionais que, muitas vezes, não têm acesso direto aos grandes centros de moda do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Essa edição, em particular, reforçou o papel do festival como vitrine de economia criativa, unindo moda autoral, turismo e valorização cultural em um único circuito. A escolha da Praia de Iracema como palco principal não foi por acaso: o bairro concentra historicamente parte significativa da produção cultural de Fortaleza, e a celebração dos 300 anos da cidade deu ainda mais peso simbólico aos desfiles realizados em espaços públicos e pontos turísticos.
Para o público que acompanha moda e cultura, o Dragão Fashion Brasil 2026 deixou um recado claro. A força criativa do Nordeste não depende apenas de validação externa, mas é capaz de construir um circuito próprio, com identidade, artesanato e inovação caminhando lado a lado. A expectativa agora é observar como as peças e parcerias apresentadas em Fortaleza vão repercutir nas próximas temporadas de moda no Brasil, especialmente no São Paulo Fashion Week, marcado para outubro.
Fontes: ELLE Brasil, FashionNetwork Brasil, ConceituAdo
Autor: Diego Rodríguez Velázquez