A diversidade de territórios do Nordeste ganhou forma na passarela da São Paulo Fashion Week N61. Em 15 de outubro de 2026, a marca cearense Catarina Mina apresentou a coleção “Bonito para chover”, criação assinada pela estilista e diretora criativa Celina Hissa. O ponto de partida foi a relação entre a caatinga nordestina e a água, traduzida em roupas e acessórios que exploram texturas, tramas manuais e referências visuais a gotas e cursos de rios.
Em vez de concentrar a narrativa em uma única matéria-prima, a coleção articula técnicas produzidas em diferentes localidades. A proposta reúne o saber artesanal do Ceará, do Piauí e do Rio Grande do Norte em uma mesma apresentação, aproximando trabalhos tradicionais de uma linguagem de moda contemporânea. Segundo a ELLE Brasil, a marca também incorporou novos processos ao seu repertório nesta edição da semana de moda.
Uma coleção construída entre água e caatinga
O tema da água aparece tanto na inspiração quanto no desenho dos acessórios. Algumas peças apresentam formas associadas a gotas e ao movimento dos rios, enquanto a cartela de técnicas reforça a ideia de superfícies e fluxos. Bordados, crochês e macramês convivem com materiais naturais e trabalhos de acabamento manual, criando uma coleção em que a paisagem nordestina é traduzida por meio de volumes, tramas e detalhes.
Entre as novidades está a rede de travessa, técnica incorporada ao desfile ao lado da renda tramoia, produzida por artesãs do coletivo Mães do Mar, de Acaraú, no Ceará. A palha de agave de Parnaíba, no Piauí, também participa da construção das peças e dos acessórios. Esses elementos aparecem em tops, sobressaias, vestidos longos e complementos que ampliam o vocabulário material da Catarina Mina.
Artesanato regional em diferentes silhuetas
A apresentação não ficou restrita a um único tipo de modelagem. A coleção inclui vestidos sem alças, túnicas alongadas, calças balão, saias midi, robes amplos e vestidos longos de festa. A variedade de silhuetas permite que as técnicas manuais sejam percebidas em propostas distintas, do volume mais descontraído às construções de maior impacto visual.
Ao lado das novidades, a Catarina Mina manteve procedimentos já associados ao trabalho da marca. A renda de bilro, o richelieu de agave e o bordado richelieu aparecem novamente na coleção, estabelecendo uma ligação entre a identidade construída pela grife e a pesquisa apresentada na SPFW N61. O resultado combina superfícies artesanais, fibras naturais e peças de proporções variadas.
O upcycling entra no repertório da marca
Outro destaque da coleção é a estreia do upcycling entre os processos da Catarina Mina. As primeiras entradas do desfile foram compostas por peças de crochê feitas nos municípios de Caicó e Acari, no Rio Grande do Norte, utilizando resíduos têxteis fornecidos pela Riachuelo. O recurso acrescenta à coleção uma dimensão de reaproveitamento, sem afastá-la do eixo central dedicado ao trabalho manual.
A escolha conecta resíduos da indústria têxtil a redes de produção artesanal regional. Na prática, o material que seria descartado passa a integrar novas peças de crochê, elaboradas por artesãs potiguares. A iniciativa coloca lado a lado três elementos presentes em “Bonito para chover”: o desenvolvimento de uma linguagem autoral, a valorização de técnicas tradicionais e a busca por novos usos para materiais já existentes.
A participação da Catarina Mina fez parte da programação da São Paulo Fashion Week N61, realizada entre 13 e 18 de outubro de 2026. A presença da marca cearense no evento evidencia como a moda brasileira pode levar à passarela referências ligadas a comunidades produtoras e matérias-primas específicas, sem reduzir o artesanato a um detalhe decorativo.
Conforme o calendário divulgado pela ELLE Brasil, a edição N61 reuniu marcas em diferentes momentos do evento. No desfile da Catarina Mina, o foco esteve em uma moda que relaciona criação, território e técnica: da renda tramoia de Acaraú à palha de agave de Parnaíba, passando pelo crochê feito com resíduos têxteis no Rio Grande do Norte.
Com “Bonito para chover”, Celina Hissa amplia a leitura sobre o que pode ser uma coleção inspirada no Nordeste. A caatinga e a água não aparecem apenas como referências visuais, mas como pontos de partida para reunir materiais, técnicas e trajetórias de produção. O desfile transforma essa rede de saberes em roupas e acessórios que chegam à passarela com identidade regional e acabamento contemporâneo.