Diretor criativo apresenta primeira coleção couture para a maison espanhola em Paris e retoma volumes históricos após a era Demna.
A semana de alta-costura de Paris trouxe, entre os dias 6 e 9 de julho, um dos desfiles mais aguardados da temporada: a estreia de Pierpaolo Piccioli na alta-costura da Balenciaga. O italiano assumiu a direção criativa da maison em 2025, mas até então só havia apresentado coleções de prêt-à-porter. A apresentação de terça-feira, realizada na avenida George V, endereço histórico onde Cristóbal Balenciaga instalou seu ateliê ao chegar à França, marcou o retorno físico da grife a esse capítulo da própria história. Para quem acompanha moda de perto, a dúvida que ficou no ar era simples: depois de dez anos sob o comando de Demna, marcados pela ironia e pela estética de rua, o que restaria da Balenciaga clássica? A resposta, segundo a crítica internacional, veio em forma de plumas, volumes esculturais e um bolso icônico reinventado.
O que mudou na Balenciaga com a chegada de Piccioli
Antes de Piccioli, a Balenciaga viveu quase uma década sob a assinatura de Demna, período em que a marca se tornou sinônimo de viralização, humor ácido e roupas que dialogavam com a cultura urbana. Segundo análises publicadas por veículos como a revista Hola, essa fase consolidou um público jovem em torno da grife, mas também deixou de lado parte do savoir faire que Cristóbal Balenciaga cultivou desde a fundação da casa, em 1917, em San Sebastián. A chegada de Piccioli, que havia deixado a direção criativa da Valentino em 2024, foi lida pelo mercado como um sinal de que a maison buscaria reconectar-se com sua origem couture.
Na coleção apresentada para o outono e inverno de 2026 e 2027, essa virada ficou evidente. Piccioli recuperou a silhueta balão, um dos traços mais reconhecíveis criados por Cristóbal Balenciaga em 1953, e a trabalhou em jaquetas e saias superdimensionadas. Um vestido de gala de 1950, originalmente feito para a socialite Hattie Carnegie, foi reinterpretado em chiffon de seda preto, enquanto o icônico vestido saco, outro símbolo da maison, ganhou uma versão contemporânea em tricô de seda e lã. A modelo Gigi Hadid desfilou um dos looks mais comentados, inspirado em uma peça de 1967, agora revisitada com plumas de galo, material que Piccioli já usava com frequência em suas coleções anteriores.
O bolso Le City e os detalhes que resgatam a assinatura de Cristóbal
Um dos pontos que mais chamou atenção da imprensa especializada foi a reinterpretação do bolso Le City, criado por Nicolas Ghesquière em 2001 e um dos itens mais vendidos da história recente da grife. Piccioli cobriu o modelo com cristais em ouro rosa e acabamento metálico prateado, transformando um acessório já consagrado em uma peça de luxo ainda mais exclusiva. A informação foi confirmada por publicações da própria equipe de marroquinaria da Balenciaga nas redes sociais da marca, o que reforça o caráter verificável do lançamento.
Além dos acessórios, a coleção trouxe referências recorrentes ao próprio percurso profissional de Piccioli, como o uso do tom fúcsia e das capas longas, elementos que também marcaram sua longa passagem pela Valentino. Segundo a publicação especializada AnOther, o estilista optou por apresentar o desfile ao ar livre, no jardim da Cité Internationale Universitaire de Paris, uma escolha que rompe com a tradição dos salões fechados da Avenue George V e reforça a ideia de uma alta-costura pensada para o momento atual, e não apenas como reverência ao passado. Para Piccioli, a intenção não era fazer uma homenagem literal a Cristóbal Balenciaga, mas sim dar continuidade a um espírito de ofício que, em sua visão, havia ficado em segundo plano nos últimos anos.
Por que esse debate importa para quem acompanha moda no Brasil
A repercussão da estreia de Piccioli não fica restrita aos salões parisienses. Historicamente, mudanças de direção criativa em casas como Balenciaga costumam influenciar diretamente as coleções de prêt-à-porter que chegam às vitrines globais nos meses seguintes, além de moldar o que aparece em tapetes vermelhos e editoriais de moda ao redor do mundo. O fato de a nova coleção resgatar volumes históricos, cores associadas ao próprio Piccioli e acessórios já consagrados sugere um caminho de maior elegância e menos provocação para a marca nos próximos lançamentos.
Também chama atenção o simbolismo da temporada: a apresentação marcou o 55º desfile de alta-costura da história da Balenciaga, e a escolha do endereço na avenida George V não foi acidental, já que remete diretamente ao período em que Cristóbal Balenciaga trabalhava na cidade. Para o público brasileiro que acompanha moda internacional, esse tipo de detalhe funciona como bússola para entender o momento das grandes maisons e antecipar tendências de silhueta, cor e acabamento que devem se espalhar pelas próximas estações.
A expectativa agora recai sobre as próximas coleções de prêt-à-porter de Piccioli para a Balenciaga, que deverão mostrar se os elementos apresentados na alta-costura, como os volumes esculturais e o resgate de acessórios clássicos, vão se traduzir em peças de uso cotidiano. Enquanto isso, a estreia couture já é tratada pela crítica internacional como um divisor de águas na trajetória recente da grife, encerrando de forma simbólica o ciclo iniciado por Demna e reabrindo um capítulo mais próximo da tradição que consagrou a marca ao longo de mais de um século de história.
Fontes consultadas:
https://www.hola.com/moda/20260709911984/balenciaga-alta-costura-otono-invierno-2026-2027-desfile/
https://coveteur.com/balenciaga-haute-couture-fall-winter-2026-review
https://www.anothermag.com/fashion-beauty/17311/balenciaga-piccioli-haute-couture-spring-summer-2027-ss27-review
https://br.fashionnetwork.com/news/Semana-de-alta-costura-em-paris-calendario-de-julho-marcado-pela-fidelidade-e-ousadia-internacional,1836979.html