Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, ex-secretário de Saúde, costuma lembrar que o rastreamento do câncer de mama é muitas vezes tratado como despesa, quando o gasto mais alto está justamente em não rastrear. A conta parece contraditória porque o custo da mamografia aparece de imediato no orçamento, enquanto o custo do diagnóstico tardio se espalha por anos de tratamento, internações e medicamentos. Observar os dois lados ajuda a entender por que detecção precoce também é uma decisão de gestão.
O estágio da doença muda o tratamento
Um tumor pequeno, restrito à mama, costuma ser tratado com cirurgia conservadora, radioterapia e, conforme o tipo, terapia hormonal oral. Em muitos casos, a paciente retoma a rotina em poucas semanas e mantém acompanhamento ambulatorial.
O cenário muda quando a doença é descoberta em fase avançada. A cirurgia tende a ser mais extensa, a quimioterapia passa a ser necessária com mais frequência e, nos casos com metástase, o tratamento se prolonga por tempo indeterminado. O tempo de tratamento também se estende, com sessões semanais ou mensais que ocupam leitos de quimioterapia e agendas de radioterapia. Cada etapa adicional envolve consultas, exames de controle, internações por complicações e equipes de várias especialidades.
Medicamentos de alto custo e tratamento contínuo
Os avanços da oncologia trouxeram terapias mais eficazes, como medicamentos dirigidos a características específicas do tumor. Muitos têm preço elevado e são usados por períodos longos, sobretudo na doença metastática, em que o objetivo passa a ser o controle por meses ou anos.
Na doença inicial, parte desses tratamentos tem duração definida e intenção curativa. Na doença avançada, o uso tende a ser contínuo e sequencial, com troca de medicamentos quando um deixa de funcionar. Segundo Vinicius Rodrigues, a diferença entre os dois cenários pesa tanto no orçamento da saúde quanto na vida das pacientes.
O impacto que não aparece na conta hospitalar
O custo vai além do sistema de saúde. O câncer de mama atinge muitas mulheres em idade produtiva, e o tratamento prolongado significa afastamento do trabalho, perda de renda familiar e necessidade de cuidadores. Em famílias de menor renda, o efeito pode se estender aos filhos e a outros dependentes.
Há também os gastos indiretos com deslocamento. Pacientes de municípios pequenos viajam repetidas vezes até centros de referência, muitas vezes com transporte custeado pela prefeitura. Quanto mais longo e complexo o tratamento, maior a pressão sobre esses serviços.
Por que o investimento em rastreamento compensa?
O rastreamento organizado exige recursos para equipamentos, profissionais, sistemas de informação e busca ativa. Também gera custos com exames complementares e biópsias de casos que se revelam benignos. Ainda assim, quando a cobertura é alta e a investigação é rápida, a proporção de tumores descobertos em estágio inicial aumenta.
Na análise de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a comparação não deve ser feita exame a exame, e sim pelo percurso completo de cada paciente. Uma mamografia que antecipa o diagnóstico em dois anos pode evitar meses de quimioterapia, internações e tratamentos contínuos.
Gestão orientada por resultado
Para que o investimento produza efeito, o gestor precisa acompanhar indicadores que mostrem o estágio em que os tumores estão sendo diagnosticados. A proporção de casos iniciais é um termômetro direto da eficiência do rastreamento e permite comparar regiões, serviços e períodos.
Integrar atenção primária, serviços de imagem e centros de oncologia completa a estratégia. Conforme avalia Vinicius Rodrigues, o diagnóstico precoce reduz custos porque reduz a gravidade da doença, e esse ganho só se concretiza quando cada mulher percorre, sem interrupções, o caminho entre o convite para o exame e o início do tratamento.